
NOVIDADES DA SEMANA: NÃO EXISTE SOCIALISMO NA POBREZA – A engenharia financeira da China ▶️
🚨 Plantão da Expedição – Edição n° 84 – 07.08.2026

“A ascensão global da República Popular da China desafia os axiomas econômicos do Ocidente ao demonstrar que a coordenação estatal de longo prazo supera a volatilidade inerente aos mercados autorregulados.
Neste seminário, promovido pelo Centro de Estudos de Relações Econômicas Internacionais (CERI) do Instituto de Economia da Unicamp (IE Unicamp), o economista Marcelo Azevedo* expõe a anatomia do aparato bancário e monetário chinês. Sob a supervisão teórica da professora Simone Deos, a análise desmistifica as finanças asiáticas a partir do entendimento de que o capital deve atuar sob estrita diretriz política, alcançando as extremidades sociais para que as forças produtivas se desenvolvam em sua plenitude.
Ao contrário do arranjo ocidental, onde o crédito opera sob a lógica do lucro imediato, o ecossistema financeiro chinês é estruturado em uma orquestra institucional centralizada pelo Partido Comunista da China (PCC). Azevedo mapeia a atuação de quatro grandes fundos soberanos supridos por reservas internacionais ascendentes (como o Ruijin e o Huitong) e oito macrobancos nacionais. A distinção crucial estabelecida pelo autor ocorre entre os bancos públicos comerciais — a exemplo do Banco do Comércio e Indústria da China (ICBC), o maior do mundo em ativos, e o Banco Agrícola da China — e os chamados bancos políticos, como o Banco de Importação e Exportação da China (Exim Bank) e o Banco de Desenvolvimento da China (CDB). Estas instituições funcionam sem pressões comerciais estritas, atuando diretamente na execução física de políticas públicas, como o financiamento de mais de 3.000 projetos da Iniciativa do Cinturão e Rota (Belt and Road Initiative) e o suporte direto à erradicação da pobreza absoluta em regiões vulneráveis”. (Instituto de Economia da Unicamp – YouTube/30.06.2026)
* Marcelo Azevedo é economista, pesquisador e pós-doutorando no Instituto de Economia da Unicamp (IE Unicamp). Desenvolve pesquisas avançadas sobre o sistema financeiro chinês, economia política internacional e a governança estatal de bancos públicos, com passagens e colaborações acadêmicas pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ). É autor de obras dedicadas à reestruturação macroeconômica da China contemporânea e ao pensamento de Deng Xiaoping.
📖🎧SESSÃO PRINCIPAL – ARTIGOS EXPOSITIVOS DA BIBLIOGRAFIA ECONÔMICA DE KARL MARX – ARTIGO EXPOSITIVO III – GRUNDRISSE
“Marx não é um oráculo, não adianta ir às obras dele na busca de respostas prontas para os desafios que enfrentamos hoje. Mas, ao mesmo tempo, não podemos ignorar suas contribuições para compreensão da dinâmica da sociedade capitalista, uma dinâmica que se metamorfoseou em várias dimensões, mas que continua mantendo traços essenciais que Marx desvendou. Por exemplo, a plataformização do trabalho de fato muda as relações entre os trabalhadores e seus patrões. Não é algo que Marx pudesse ter previsto. Aparentemente, uma das características definidoras do modo de produção capitalista, a separação entre os trabalhadores e os meios de produção, foi superada, já que o motorista de Uber é ou pode ser o dono do seu automóvel, o entregador do iFood é o dono de sua moto ou de sua bicicleta e assim por diante. Na verdade, o aplicativo tornou-se o intermediário indispensável sem o qual o trabalho não pode se concretizar. Então, embora as mudanças não sejam insignificantes, permanecem os elementos centrais do capitalismo: a exploração do trabalho, o controle da atividade do trabalhador, a impossibilidade do trabalhador colocar por conta própria o produto de sua atividade no mercado (exceto para vender sua força de trabalho), a alienação do trabalhador na atividade produtiva.
Em relação ao capitalismo ‘clássico’, da época de Marx, vemos na verdade uma agudização desses problemas. A pulverização da força de trabalho dificulta sua organização; mesmo onde ela permanece reunida, como, por exemplo, nos galpões de empresas como a Amazon, o controle cada vez mais rígido, que a tecnologia permite, cumpre este mesmo papel. Ou seja, as circunstâncias mudam, mas as tendências gerais descritas por Marx permanecem de pé.
O capitalismo se transmuta, mas permanece sendo capitalismo, um modo de produção baseado na propriedade dos meios de produção, ainda que hoje esses meios ganhem a forma de aplicativos, e na exploração do trabalhador, isto é, na extração de mais-valor a partir do sobretrabalho da classe trabalhadora, ainda que uma parcela crescente dessa classe seja formalmente autônoma. É a dinâmica do capitalismo, de subordinar o valor de uso ao valor de troca, que nos empurra para o colapso ambiental (que, uma vez mais, Marx não tinha como prever, mas que nos ajuda a entender). Da mesma forma, a integração da classe trabalhadora à sociedade de consumo, o desenvolvimento da indústria cultural e agora as plataformas sociodigitais geraram formas de alienação com as quais Marx nem sonhava. Mas a alienação, isto é, a incapacidade de conectar a própria atividade com a produção do mundo social, continua sendo um fenômeno fundamental da experiência humana sob o capitalismo.
Não é possível entender o mundo sem entender o capitalismo e não é possível entender o capitalismo sem estudar Marx. A obra de Marx e a de tantos que se inspiraram nele continuam sendo indispensáveis para quem quer entender e transformar o mundo. Marx continua sendo um parceiro fundamental no esforço de decifrar a realidade e buscar caminhos para evitar a catástrofe. Não nos dá uma receita de bolo, não tinha bola de cristal, precisa ser interpelado criticamente, discutido, emendado. Mas precisa ser lido e entendido.”
Luis Felipe Miguel (Cientista Político)*
* Trecho da entrevista concedida ao Historiador Thiago Gama, publicada no site Outras Palavras e Instituto Humanitas Unisinos.
E então, vamos conhecer Marx?
Clique na imagem e venha com a gente na Expedição Karl Marx: Para ler “O capital” 

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